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27 de junho de 2013

GUERRA FRIA: URSS X EUA. CONFLITOS INDIRETOS PARA UMA GUERRA IDEOLOGICA PELA HEGEMONIA MUNDIAL.




INTRODUÇÃO:



A Guerra Fria se caracterizou por uma guerra ideológica com conflitos indiretos entre os EUA e a URSS, grandes potências da época que disputavam a soberania mundial através de uma grande corrida tecnológica e armamentista, que inclui o aumento da produção de bombas atômicas, o desenvolvimento da indústria aeroespacial, e a consequente ameaça de uma possível guerra entre ambas cujo medo incluía o equilíbrio do terror diante do poder destrutivo de ambos os países.
O artigo desta postagem busca analisar os conflitos indiretos em que ambas as potências estiveram envolvidas, buscando não apenas a utilização da indústria de guerra, como também manter alianças e consagrar o domínio ideológico na área em questão.
A proximidade da URSS com a Ásia determinou uma influência forte do comunismo sob os movimentos nacionalistas contra o imperialismo ocidental (norte americano e inglês), culminando em revoluções comunistas, que acabaram por solidificar a hegemonia soviética no continente asiático. Posteriormente, com a Revolução Chinesa, a China iniciou ações de disputa com URSS por áreas de influência na Ásia, marcando presença e apoiando o comunismo na Guerra da Coréia, como forma de consolidar autonomia de seu regime político.
Apesar da grande ameaça de Guerra, após a morte de Stalin em 1953 e a entrada de Nikita Kruschshov como líder do partido comunista soviético, a caixa preta da ditadura stalinista foi aberta durante XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956, onde em um discurso foram reveladas as perseguições, a tortura, os campos de concentração aos opositores, inclusive ao próprio partido comunista, o que determinou uma cisão entre as diferentes visões e ações dos comunistas em nível internacional, e na URSS teve inicio o processo de desestalinização.
A crise interna soviética somou-se a um processo que incluíra no contexto de Guerra Fria acordos entre URSS e EUA de redução da produção de armas nucleares, além de uma relação direta entre ambos os líderes a partir da década de 1960, como o telefone vermelho, para evitar possíveis conflitos entre as duas potências mundiais. Neste período a Guerra Fria assume um processo de distensão denominado Coexistência Pacífica cujos rumos levarão a degradação da URSS e a consequente abertura política e a consolidação do capitalismo como sistema econômico mundial.


A REVOLUÇÃO CHINESA (1949):





A Revolução Chinesa resultou da retomada de lutas entre comunistas e nacionalistas chineses após a Segunda Guerra Mundial. Neste contexto também estavam incluídos como fundamentos históricos as relações entre camponeses e latifundiários, e a luta pela unificação do país contra um invasor estrangeiro: o Japão.
O Partido Comunista Chinês (PCC) foi fundado em 1921 e tinha como pauta política a defesa da unificação do país com apoio aos camponeses contra os latifundiários e funcionários do Estado, que dominaram a política do país após terem derrubado a monarquia e consolidado a república.
Chiang Kai-Chek em 1927 assumiu a liderança do Kuomintang – partido nacionalista republicano que governava o Estado chinês; passando a perseguir os membros do parido comunista, pois a liderança comunista, entre eles Mao Tsé-Tung, refugiava-se nas zonas rurais unindo-se aos camponeses e influenciando os operários a incorporara luta revolucionário contra a república chinesa.
O partido comunista havia somado uma força militar de 30 mil homens, o que em oposição culminou em uma ofensiva de Chiang Kai-Chek para eliminar as ações comunistas. Tal episódio culminou entre 1934 e 1935 na Grande Marcha liderada por Mao Tsé-Tung, onde 100 mil homens marcharam quase 10 mil quilômetros para ocupar a região de Shensi no extremo norte da China. Essa ação consolidou a influência comunista entre a maioria da população, que passou a entender tal filosofia, como sinônimo de libertação e verdadeira força da nação chinesa.
No entanto, a consolidação dos anseios comunistas emergiu de uma ação inesperada, que coincidiu com a tentativa de domínio do Japão de domínio da China durante a Segunda Guerra Mundial. As ações imperialistas do Japão determinaram a união dos nacionalistas e comunistas pela expulsão dos invasores da China. Contudo, Chiang Kai-Chek estava determinado, de com o apoio militar dos EUA derrotar os comunistas atacando as bases camponesas. O Exército de Libertação, força militar dos comunistas, enfrentou e derrotou as tropas do Kuomintang, e Ching Kai-Chek refugiou-se na ilha Formosa, atual Taiwan.
Em 1º de outubro de 1949 o Partido comunista tomou o poder e proclamou a República Popular da China.
Após anos de guerra a China estava afundada em uma grave crise econômica e povo vivia em condições miseráveis. Com o apoio financeiro e tecnológico da URSS, os chineses iniciaram o processo de estatização da economia, coletivização das terras, desenvolvimento industrial e a alfabetização da população, o que determinou entre 1949 e 1952, uma rápida recuperação economiza e social cujo resultado foi a apresentação de um alto índice do crescimento industrial, expansão no sistema educacional, e igualdade de direitos entre homens e mulheres, rompendo com preconceitos milenares que subjugavam as mulheres na sociedade.
Apesar do crescimento econômico, o modelo soviético causava insatisfação entre os chineses devido a remodelagem ideológica e cultural que sociedade deveria passar. Tal situação gerou um retrocesso político causado pela baixa produtividade da produção agrícola nas terras coletivizadas, a emergência de uma onda de greves no setor industrial em função dos baixos salários e más condições de trabalho. Em 1956 o Movimento das Cem Flores incluiu uma pauta de discussão critica sobre a situação chinesa que teve a participação de estudantes, intelectuais, camponeses, operários, que desejavam rediscutir os rumos do comunismo sob a ação soviética. O governo recuou e agiu frente aos protestos. Em 1958, Mao Tsé-Tung assume o governo decidindo formular um caminho próprio para a implementação do socialismo na China abandonando o modelo soviético.
Sob o governo de Mao Tsé-Tung a China passou para o Grande Salto para industrialização, onde a falta de capital foi compensada pela ação dos trabalhadores. A reforma agrária foi aprofundada através das Comunas Populares, onde os camponeses instalavam pequenas fábricas, escolas e hospitais com um modelo local de comunismo cujo princípio era a igualdade.
Com a saída dos soviéticos do país, as ações de Mao Tsé-Tung tenderam a fracassar gerando um quadro econômico de nova crise entre 1960 e 1961. No ano seguinte a China entrou em processo de recuperação através da recuperação da produção agrícola pela concessão de lotes para produção camponesa. Neste momento o Partido Comunista se dividiu em duas frentes: 1) liderada por Chu En-Lai, que defendia a proposta das Quatro Modernizações- agricultura, defesa nacional, ciência e tecnologia; 2) a de Mao Tsé-Tung que acreditava na mobilização popular para resolver a situação do país.
Neste contexto a China passou a criticar os soviéticos, sobretudo após a morte de Stalin, onde a Coexistência Pacífica entre EUA e a URSS teve inicio. A China se afastou da URSS e passou a disputar a hegemonia comunista na Ásia almejando tronar-se uma referência internacional. 

Mao Tsé-Tung lidera a Revolução Cultural Chinesa.
  
Culto ao líder, leitura do Livro Vermelho, censura e fechamento do Estado faziam parte do modelo de socialismo chinês.

Em1966 a China passou pela Revolução Cultural Proletária, liderada por Mao Tsé-Tung, que extinguiu o modo de vida burguês e capitalista, proibindo a entrada de livros e da cultura ocidental no país. Mao se apoiou numa enorme mobilização da juventude urbana da China, organizando grupos conhecidos como Guardas Vermelhos.
Os guardas vermelhos eram unidades paramilitares compostas de 11 milhões de estudantes, organizadas pelo PCC, que ajudaram Mao Tsé-Tung a derrotar seus rivais na luta pelo comando do país. O grupo, que chegou a ter 11 milhões de integrantes, iniciou uma onda de vandalismo contra monumentos históricos - que lembravam a antiga cultura chinesa -, perseguiu membros rivais do PCC, professores, intelectuais e pessoas acusadas de associação ao imperialismo. Além da guarda, Mao tornou a leitura do Livro Vermelho obrigatória no país e instituiu o culto a sua imagem.
Em 1976 quando Mao Tsé-Tung morreu, os novos dirigentes do PCC assumiram o poder e colocaram fim a Revolução Cultural adotando a política das Quatro Modernizações, que incluía o socialismo de mercado à economia chinesa.


GUERRA DA CORÉIA (1950/1953)

Mapa da Coréia. Divisão entre Norte e sul após a Segunda Guerra Mundial e após a Guerra da Coréia.

A Guerra da Coréia foi um dos marcos na Guerra Fria. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Coréia foi invadida por japoneses, mas guerrilheiros comunistas conseguiram conter a invasão. Na Conferência de Yalta e Potsdam em 1945, Churchill, Roosevelt e Stalin decidiram dividir a Coréia em duas áreas de influência através do paralelo 38, definindo o norte sob influência comunista e o sul sob domínio norte-americano.
Na parte norte da península, sob o apoio soviético Kim Il Sung implementou a República Popular da Coréia sob regime comunista, enquanto na parte sul prevalecia o regime capitalista sob um governo ditatorial militar. Com o estímulo de Stalin a Coréia do Norte resolveu invadir a Corei do Sul como forma de unificar a península sob o regime comunista. O governo norte-americano não aceitou a invasão e a guerra teve inicio com o apoio da URSS e dos EUA.
Com a intervenção da ONU, os norte-americanos impediram o avanço dos norte-coreanos sob o sul, e realizaram um contra-ataque invadindo o norte como forma de unificar as Coréias. A China se posicionou avisando que se isso ocorresse iria entrar na guerra.
Com a entrada da China na guerra ocorreu recuou norte-americano do norte e o consequente desfecho do conflito através do estabelecimento das duas Coréias: norte – comunista, e sul- capitalista, divididas pelo paralelo 38. Em 1953, a guerra chegou ao fim.






GUERRA DO VIETNÃ (1959/1975) 

Vietcongues armam-se contra os soldados americanos utilizando estratégia de guerrilha.

A Guerra do Vietnã está associada a um processo histórico fundamentado no imperialismo francês. A região da Indochina formada pelo Laos, Camboja e Vietnã era dominada pelos franceses. Em 1941, a Indochina foi atacada pelos japoneses, mas os guerrilheiros do Viet Minh – da Liga pela Independência do Vietnã; liderada por Ho Chi Minh, iniciou a luta contra o exército japonês.
Com o fim da guerra, Ho Chi minh proclamou a independência dando origem ao Vietnã, mas a França regiu enviando tropas para retomar o domínio sob o território. Entre 1946 e 1954, os guerrilheiros do Viet Minh resistiram a França concentrando-se no norte do país, e após anos de luta e vitórias conseguiram negociar a saída dos franceses do país e o fim da guerra. Em 1954 a França reconheceu a independência da Indochina e a formação do Laos, Camboja e Vietnã. No entanto, o Vietnã acabou dividido em dois, sendo o norte – República Democrática do Vietnã, apoiada pela URSS e China; e o sul – a República do Vietnã, apoiada pelos EUA.
Em 1955, com o objetivo de impedir a expansão do comunismo, os EUA apoiou a implantação de um regime autoritário militar e repressivo liderado pelo general Ngo Dinh Dien. A intervenção norte-americana objetiva impedir o avanço comunista no sudeste Ásia. Em 1960 protestos durante as eleições no Vietnã sul ocorreram e a Frente de libertação Nacional passou a se opor a ditadura e receber auxilio dos guerrilheiros do norte com armas e alimentos. A FNL era formada por vietnamitas comunistas do sul, que pejorativamente forma chamados de vietcongue.
Com o crescimento da FNL, os EUA começaram a enviar tropas militares e armamentos para o exército do Vietnã Sul contra os vietcongues apoiados pelo norte. Em 1964 estourou oficialmente a guerra no Vietnã.
Nos EUA uma forte mobilização e manifestação social teve inicio com os movimentos de contracultura, que defendia o slogan “Faça amor e faça Guerra”. A propaganda de guerra nacional incentivava a defesa do país e o recrutamento como exemplo de nacionalismo em oposição às manifestações, que defendiam que a guerra com o Vietnã era sem objetivo e fora de questão, motivada pelo alimento da hegemonia militar americana e para satisfação da difusão do America Way of Life. Além disso, era a primeira vez que uma guerra aparecia na televisão, e os horrores dos combates apresentavam as imagens chocantes de destruição.
 
 
Movimento de jovens norte-americanos que defendiam o slogan "Faça amor e não faça guerra".

Mesmo com a supremacia militar os vietcongues utilizaram a tática de guerrilha contra o desconhecimento do território pelos americanos, o que levou a vitoria sucessivas do exército comunista e a morte de milhares de jovens soldados americanos.
Em 1972, Richard Nixon ampliou a guerra ao bombardear o Laos e o Camboja, e mesmo assim os vietcongues apoiados pelo Vietnã do Norte continuavam a causar grandes baixas no exército americano. Em 1973, desgastado, os EUA assinou um tratado de paz com o Vietnã e retirou os soldados do país, mas a guerra se prolongou até 1975, quando o Vietnã Norte, tomou Saigon, capital do Vietnã sul, e unificou o país com o nome de República Socialista do Vietnã. 

Mapa do Vietnã

O reflexo da guerra do Vietnã contabiliza um saldo de 2 milhões de civis mortos, pessoas desaparecidas, soldados mutilados, e maior potência militar do planeta saiu humilhada da guerra.  


REVOLUÇÃO CUBANA (1959)

 
Ernesto Che Guevara e Fidel Castro: líderes e símbolos da Revolução Cubana

"Cuba dará, também, seu grão de areia para que o mundo se entenda... Cuba deve constituir, para o mundo, neste momento, uma preocupação, porque é um dos problemas mundiais... Dizem que em Cuba não existe a paz que o mundo deseja... Mas somos nós, cubanos, representantes de Cuba, merecedores do mau tratamento que temos recebido?" (Trechos do discurso de Fidel proferido da tribuna da Assembléia Geral da ONU em 1959 após a Revolução Cubana).

A Revolução Cubana tem raízes na atuação do imperialismo norte-americano intensificado com a Emenda Platt, promulgada em 1902, após a independência cubana da Espanha (1898), que ocorreu sob auxílio dos EUA. A independência custou caro aos cubanos, pois após o suposto alcance da liberdade, a nova constituição cubana admitia o direito dos norte-americanos de intervir na ilha sempre que seus interesses fossem ameaçados, o que limitou a soberania cubana.
Todos os setores da economia estavam vinculados ao domínio estadunidense. Os latifúndios de cana de açúcar pertenciam aos EUA, as eleições eram marcadas por fraudes e violência, a ilha era alimentada pelas importações norte-americanas, entre outros abusos que tronavam o povo cubano submisso. 
Em 1952 Fulgêncio Batista assumiu o poder após fraudar as eleições e impôs um governo ditatorial. Estudantes em Havana protestaram, entre eles Fidel Castro com 26 anos, que junto a um grupo de 150 homens se organizava para retirar Batista do poder. Em 1953, Fidel atacou o quartel de Moncada, com um grupo de companheiros. O ataque fracassou e Fidel e seus companheiros foram presos, mas o ditador anistiou os rebeldes, o que levou Fidel a se exilar no México, onde reorganizou suas forças com o Movimento Revolucionário 26 de julho (MR-26), onde Ernesto Guevara, conhecido como Che Guevara, integrou-se ao grupo.
No final de 1956, Fidel retornou a Cuba para iniciar o confronto militar com Batista. O plano de desembarque fracassou e Fidel teve que se refugiar com os companheiros em Sierra Maestra, onde começaram as operações guerrilheiras. Essas operações tornaram-se cada vez mais organizadas e o movimento guerrilheiro cresceu em força e apoio popular enfrentando o poder do ditador. Em 8 de janeiro de 1959, depois de uma bem-sucedida greve geral, Batista foi derrubado e as tropas de Fidel entraram em Havana.
 
Revolucionários entram em Havana.

Fidel Castro discursa para população.

O novo governo formou tribunais revolucionários para julgar os funcionários da ditadura de Batista. Uma série de medidas beneficiaram a população como a redução de aluguéis e dos preços dos remédios, controle das tarifas de telefone e energia, instituição de uma salário mínimo para os cortadores de cana, grandes investimentos para educação e reforma agrária.
Os EUA reagiram em relação as medidas tomadas por Fidel, sobretudo a reforma agrária. A oposição das elites cubanas ao governo de Fidel foi imediata. A postura nacionalista e progressista inicial das medidas tomadas por Fidel criaram um clima hostil entre o governo cubano e os EUA. A situação agravou-se quando Cuba assinou um acordo comercial com a URSS. Em retaliação os EUA sabotaram as usinas de açúcar e explodiram uma bomba no porto de Havana matando 100 cubanos. As cotas de importação do açúcar para os EUA foram suprimidos, e em oposição Fidel nacionalizou as empresas norte-americanas de combustíveis, energia, telefonia e os bancos. O governo norte-americano respondeu com o embargo econômico a Cuba, proibindo exportações para ilha, exceto de alimentos e remédios.
Em 1961, Kennedy denunciou a presença de mísseis soviéticos em Cuba forçando a União Soviética a retirar da ilha seu arsenal nuclear, e ordenou o desembarque na Baía dos Porcos como forma de derrubar o governo de Fidel. A ação foi fracassada e um dia após o ocorrido a revolução socialista foi proclama em Cuba, que passou a ganhar auxilio militar e proteção da URSS.
Em 1962, na Conferência de Punta del Este (Uruguai), Cuba foi excluída da Organização dos Estados Americanos (OEA). Com exceção do México, todos os países romperam relações diplomáticas e comerciais com Cuba, sob o pretexto de que Cuba estava exportando sua revolução para toda a América Latina. O México como membro da OEA defendia o princio de não-intervenção e autonomia. Ao final da reunião os delegados mantiveram a posição de não alinhamento, optando pelo isolamento de Cuba, descartando a intervenção militar.


O COLAPSO DO COMUNISMO: DESESTALINIZAÇÃO E FIM DA URSS.


 


O ano de 1970 foi muito complicado para URSS, descrito pela estagnação econômica, causada pela recusa dos líderes soviéticos em executar reformas. Os EUA, desde 1960, investiam na computação, robótica e telemática adotando no campo industrial métodos de flexibilização e tecnificação da produção como o modelo toyotista, que incluía na linha da produção robôs no lugar da mão de obra operária, exigindo funcionários altamente qualificados para uma produção não mais em larga escala, e sim, just in time, ou seja, conforme a demanda do mercado. Já os soviéticos mantiveram o tradicional modelo fordista taylorista, o que os colocava em desvantagem com a produção Ocidental.
A crise se intensificou com a retomada de Ronald Regan pela disputa bélica com a chamada “Guerra nas Estrelas”. O esforço da população soviética para acompanhar isentou o país da imersão em uma forte crise econômica agravada pela crise capitalista provocada pelos choques do petróleo em 1970.
Em 1985, Mikhail Gorbachev assumiu o cargo de Secretário Geral do Partido e iniciou um processo de pacificação e abertura política, que visava reerguer a economia soviética e reduzir a disputa com os EUA. A primeira medida tomada foi à redução de 50% das armas nucleares além da destruição dos arsenais atômicos até o ano de 2000. Gorbachev ainda criou um processo de reestruturação conhecido como Perestroika buscando retomar a economia de bens de consumo e descentralizar o sistema produtivo. Junto à Perestroika, foi lançada a Glasnost, que previa a transparência política, que na verdade culminou em uma enxurrada de criticas ao governo soviético como devastação do meio ambiente, grande burocracia, autoritarismo dos dirigentes de empresas, péssima qualidade de serviços, dupla jornada de trabalho para as mulheres, gerando uma situação de forte questionamento na sociedade após anos de ditadura.


Mikhail Gorbachev
Paralelo aos problemas internos da URSS, o mundo socialista vivia um colapso gerado por uma série de movimentos nacionalistas, sobretudo na Iugoslávia, Tchecoslováquia e Hungria, Cazaquistão, Bielo-Rússia, Ucrânia, Lituânia, Estônia que almejavam a desagregação do bloco socialista e o alcance da autonomia territorial e política.
Em 1989, com a queda do Muro de Berlim, o colapso do comunismo estava oficialmente decretado, assim como o fim da própria Guerra Fria. Uma onda de movimentos democráticos rondava o Leste Europeu. Com a abertura proposta por Gorbachev, a centralização da URSS abatida pelos movimentos nacionalistas de libertação e democratização o que culminou na desagregação do gigante comunista.


Boris Yeltisin
 
Em 1991, Boris Yeltsin foi eleito presidente, depondo Gorbachev do poder. Neste mesmo ano foi decretado o fim da URSS, o reconhecimento dos países que lutavam por liberdade, tornando as repúblicas independentes da URSS, e a criação da Rússia cujo marco foi a retirada da bandeira do símbolo da foice e do martelo, substituídos pela bandeira da Federação Russa.
Estava consolidado o fim do comunismo na URSS e a retomada do capitalismo no país.


A CHINA E A SOCIALIZAÇÃO DE MERCADO.



Em 1978 a China aprovou o projeto das Quatro Modernizações, que em primeiro lugar buscou o desmonte do governo de Mao Tsé-Tung. A terra foi redistribuída entre as famílias camponesas, com a obrigação de venderem parte da produção para o Estado por um preço pré-determinado, e a outra poderia ser vendida livremente para o mercado. O aumento da renda camponesa abriu um vasto mercado para a produção industrial.
A segunda iniciativa do Estado sob o comando de Deng Xioauping foi fomentar o desenvolvimento industrial através da utilização do capital estrangeiro, o deu origem a criação das Zonas Econômicas Especiais (Zees) em cidades do litoral do país. O objetivo das Zees era a instalação de indústrias estrangeiras diversificadas voltadas para exportação.
No entanto, é importante observar, que o crescimento econômico do China e o forte interesse das empresas estrangeiras no país não se dão apenas pelo incentivo do Estado. A China oferece uma grande quantidade de trabalhadores com baixos salários, e utiliza o recurso de desvalorização da moeda nacional em relação ao dólar, o que beneficia suas exportações ampliando-as em 300% de 1990 a 2000, tornando o mercado chinês mais competitivo e lucrativo com os EUA.
Por trás da liberalização econômica, o que está atraindo capitais para a China, é o baixo custo de mão-de-obra muito disciplinada e trabalhadora. O salário mínimo na China é de 25 dólares por uma jornada de trabalho de 12 horas diárias. Na província de Fuyian o salário médio de um operário é 65 dólares, em media por mês. O outro lado do “milagre econômico chinês” foi o agravamento das desigualdades sociais e regionais, que tem provocado as migrações internas. A cidade de Shenzen, por exemplo, cresceu de 100 mil habitantes em 1979, para mais de três milhões em 1999. Todos queriam ir para as zonas econômicas especiais em busca de melhores salários.
Com base na abertura econômica e nos baixos salários, o mundo foi invadido por produtos chineses. Em 1980, período de inicio das reformas econômicas, a China ficou em 25º no ranking de exportadores, exportando 18 bilhões de dólares. Em 1997, porém o país exportou 183 bilhões de dólares, tornando-se o 10º maior exportador do mundo.
Em 1997, o governo privatizou as indústrias estatais como, indústrias químicas, de distribuição de grãos, de energia. Tal impulso e diversificação industrial determinaram um forte desgaste ambiental, poluição de cidades, exploração de mão de obra, crescimento territorial desordenado, entre outros graves problemas surgidos em nome do socialismo de mercado, onde a maior parte do lucro obtido pelo crescimento econômico chinês passa a ser reinvestido na própria China como exigência do Estado, sem negar os abusos e a liberalização da econômica para o capitalismo.
Embora a economia chinesa tenha fortes características capitalistas, o Partido Comunista Chinês mantém a defesa do socialismo com características chinesas, o que implica na manutenção do autoritarismo, do regime ditatorial e da intolerância

AMÉRICA LATINA NO SÉCULO XX





Neste artigo discutiremos dois acontecimentos importantes ocorridos na América Latina: A Revolução Mexicana 1910 e o Peronismo (1946/1955), ocorrido na Argentina, também conhecido como justicialismo.



A REVOLUÇÃO MEXINCANA (1910/1915)


Obra de Diego Rivera ilustra  organização camponesa durante a Revolução Mexicana inciada em 1910.
 
As raízes históricas da revolução ocorrida no México envolvem uma estrutura arcaica colonial caracterizada pelo domínio dos caudilhos do governo e da divisão de terras fundamentada no latifúndio. Entre 1877 e 1910 o México estava sob o governo ditatorial de Porfírio Diaz, que se mantinha no poder por meio da manipulação das eleições, mantendo uma política de benéfico aos latifundiários e empresários, enquanto os trabalhadores do campo e das cidades encontravam-se com sérias dificuldades econômicas e sociais.
Em 1910, a oposição apresentou o candidato Francisco Madero cujo objetivo era evitar a reeleição de Porfírio Diaz. Na pauta política de Madero estavam a defesa das liberdades políticas e a introdução de uma campanha para abordar as questões sociais do país como as desigualdades, a fome, pobreza, falta de direitos dos trabalhadores do campo e da cidade.
Pouco antes da eleição Madero foi preso pela polícia de Porfírio Diaz, que foi reeleito em mais uma eleição fraudulenta. Madero foge da prisão e vai para os EUA, onde lança um manifesto conhecido como Plano São Luís, proclamando-se presidente provisório do México, convocando o povo à revolta e referindo-se à distribuição de terras. Tal afirmação torna-se clara para um dos principais líderes dos camponeses: Emiliano Zapata. Zapata reivindicava o direito de posse dos indígenas e camponeses das terras que lhes foram expropriadas propondo o Plano Ayala. Desde a independência, em 1821, a questão da terra estava presente nos conflitos sociais no México. Na segunda metade do século XIX a maior parte dos indígenas já havia sido expropriada de suas terras, além disso, estes não foram incorporados como cidadãos. Em 1876 com a derrubada do governo liberal de Sebastião Tejada, pelo levante militar de Porfírio Díaz, a grande propriedade agrária foi reforçada e os camponeses despojados de suas terras. A pequena propriedade foi praticamente eliminada.
Com o plano, Madero conseguiu o apoio popular e dos mais famosos líderes camponeses revolucionários do México, no Sul, de Emiliano Zapata, e no Norte, de Pancho Villa e Pascual Orozco. Os camponeses encontravam-se fortemente armados e foram fundamentais para deposição de Porfírio Diaz em 1911. Madero é eleito presidente e, no poder, mantém o aparelho de Estado, em particular o Exército, o que provocou revolta entre seus apoiadores, pois em seu plano político ele ignorou as injustiças sociais e a reforma agrária no campo.
Zapata recusou-se a desarmar seus homens e exigiu a reforma agrária prometida no Plano São Luis e negada pelo novo presidente. A reação do líder camponês é, portanto, a de proclamar-se em rebelião contra Madero, propondo a derrubada do governo de Madero e um processo de reforma agrária sob o controle das comunidades camponesas. Zapata defendia também a reorganização do ejido – terras comunais indígenas, e a expropriação de um terço dos latifundiários mediante indenização e nacionalização dos bens dos inimigos da revolução
Villa e Zapata lideraram um movimento com vistas a obter autonomia política local como forma de garantir o direito à terra.



Pacho Villa, Madero e Emiliano Zapata.

Camponeses armados na luta pela reforma agrária no México.

Em fevereiro de 1913, enquanto a luta prosseguia no Norte e no Sul, o general Victoriano Huerta assassinou Francisco Madero.
O governo de Huerta acabou por tornar-se, para a maior parte dos revolucionários, uma restauração do porfirismo. Venustiano Carranza, que apoiava a frente de oposição camponesa, não reconheceu o novo governo e deu início à mobilização contra Huerta. O mesmo fez Villa no Norte e Zapata no Sul. Simultaneamente, o México sofreu uma ocupação no porto de Vera Cruz por forças dos EUA. Sem condições de resistir, Huerta renunciou em junho de 1914 e Carranza assumiu o poder.
Carranza hesitou em aceitar as propostas camponesas de reforma agrária e uma nova guerra civil teve inicio.
Em 1914, Villa e Zapata controlavam a maior pare do país e cobravam de Carranza um projeto Nacional proposto pelo Estado com base no Plano Ayala. Em 1915, Carranza decretou a Lei Agrária que deu inicio ao processo de devolução das terras aos camponeses, sobretudo no sul do país onde se concentravam as tropas zapatistas. No entanto, Carranza resolveu apoiar os operários utilizando-os para lutar contra os camponeses. Após sucessivas lutas, os camponeses foram derrotados. Zapata foi morto em uma emboscada em 1919, e Villa após receber uma fazenda saiu de cena e veio a falecer em uma emboscada em 1923.
Em fevereiro de 1917 é promulgada a Constituição reformada, com algumas transformações propostas pelo Programa de Ayala, como a nacionalização do solo e do subsolo e devolução das terras comunais aos indígenas – os ejidos. A Igreja Católica é separada do Estado e tem seus poderes diminuídos. Os trabalhadores passam a ter direitos reconhecidos, como jornada de trabalho de oito horas, proibição do trabalho infantil e indenização por tempo de serviço aos empregados dispensados. As medidas previstas na Constituição, no entanto, são amplamente ignoradas pelo governo.
Carranza foi deposto e assassinado em 1920 e o novo presidente passou a ser o general Álvaro Obregón, que consolidou a revolução, mas nunca consolidou a reforma agrária prevista pela constituição.
Ao observamos o desenrolar da Revolução Mexicana, nota-se a forte presença da reivindicação popular pela reforma agrária. A constituição de 1917 assumiu a questão camponesa, mas, na prática, não trouxe resultados concretos ou benefícios reais para a população camponesa.
No entanto, a organização social camponesa apresenta a voz do trabalhador do campo por direitos que se solidificou no México como um movimento forte, que transcendeu os anos da revolução e assumiu na cena contemporânea novas ações, sob a denominação de movimento zapatista.


O Movimento Zapatista ainda encontra seguidores nos dias atuais no México.

Cronologia
1910 – Início da Revolução.
1911 – Eleição de Madero e Plano de Ayala.
1913 – Assassinato de Madero e posse de Victoriano Huerta na presidência.
1914 – Renúncia de Huerta e posse de Carranza.
1917 – Promulgação da nova Constituição.
1919 – Assassinato de Zapata.
1920 – Deposição de Carranza e posse de Álvaro Obregón.



O JUSTICIALISMO DE PERÓN (1946/1955): O POPULISMO DOS DESCAMISADOS.

Juan Perón e sua esposa Eva Perón, símbolos do justicialismo na Argentina.



Com a economia baseada na agroexportação, a Argentina conseguiu se industrializar na primeira metade do século XX. A capital Buenos Aires concentrava a maioria das indústrias, que com o crescimento econômico determinou a formação de uma classe operária organizada e uma classe média atuante.
Na década de 1930, o movimento operário cresceu e se fortaleceu reivindicando direitos trabalhistas e melhores condições de trabalho. Em 1943, o coronel Juan Domingo Perón participou de um golpe de Estado junto a um grupo de militares conservadores simpatizantes do regime nazista e fascista denominado Grupo de Oficiais Unidos (GOU). O objetivo do grupo era opor-se as pressões norte-americanas para a entrada na Segunda guerra Mundial contra a Alemanha e a Itália. Neste período Perón assumiu o cargo de Ministro do trabalho e Previdência aproximando-se do movimento sindical, atendendo a demanda de direitos sociais dos trabalhadores do campo e da cidade através da implementação da aposentadoria, férias e garantia contra acidentes de trabalho.
Em 1945, o governo militar convocou eleições e Perón foi eleito em oposição ao candidato Edelmiro Farrel, que apoiava o exército. Os militares decidiram prender Perón, mas a população se manifestou e o movimento sindicalista exigiu sua libertação. A prisão de Perón significaria a anulação dos direitos alcançados pelos trabalhadores, e sua permanência como chefe de Estado era importante para os trabalhadores. Nascia o Movimento Justicialista, assim denominado por além de assumir um caráter populista, buscava como forma de aproximação do povo, defender a justiça social e os direitos dos trabalhadores, caracterizados como descamisados.
Os EUA boicotou o novo governo em função da simpatia de Perón pelos países do Eixo. Tal característica pode ser exemplificada pela prática de culto ao líder, excessiva propaganda do governo, fechamento do Estado, censura e nacionalismo.
Como medidas de governo, Perón realizou grandes transformações, com a estatização das ferrovias, empresas de telefonia, do petróleo e companhias de eletricidade. Investiu no mercado interno beneficiando os empresários e os trabalhadores com aumento de salários. Além disso, ocorreu um grande crescimento da indústria do país, com a regulação das importações, e os trabalhadores tiveram seus direitos sociais ampliados com aposentadoria, férias remuneradas, cobertura de acidentes de trabalho e seguro médico, salário mínimo, plano de habitação popular, sistema social de saúde. Houve também um grande investimento na educação universitária e incentivo ao consumo. As mulheres também passaram a ter direito a voto e foi permitida a reeleição eleitoral. Com relação à política externa, adotou uma postura antiamericana e anti-britânica, trilhando o caminho que chamou de 'terceira posição', entre o comunismo e o capitalismo.

Eva Perón discursa aos descamisados.

A popularidade de Péron e Eva marcaram o populismo argentino.


A esposa de Perón Eva Duarte Perón, conhecida como Evita, foi fundamental no governo para dialogar com os dirigentes sindicais. Com a criação da Fundação Eva Perón, os setores populares receberam apoio social do governo. Evita fundou asilos, centros médicos e distribuía alimentos aos pobres e presentes para as crianças.
Essas medidas populistas fizeram com que Perón fosse reeleito em 1951. O segundo mandato foi marcado pela morte de sua esposa Evita Perón, em 1952, que faleceu de câncer trazendo grande tristeza para Argentina. Com uma conjuntura política e econômica distinta do primeiro mandato, a situação da Argentina começou a mudar. As reservas de moedas estrangeiras haviam se esgotado, as indústrias não tinham como importar máquinas e matérias-primas, o que causou uma diminuição da produção; duas secas sucessivas arrasaram com a produção agrícola; a inflação aumentou, o salário do trabalhador baixou e junto com ele o poder de compra da população. O governo de Perón passava por grandes dificuldades econômicas, protestos de trabalhadores e instabilidade política. Esses fatores enfraqueceram o seu governo e, em 1955, acabou deposto pelos militares e se exilou no Paraguai.
Afastado das suas atividades políticas, Perón foi morar em Madri onde, em 1961, casou-se novamente com a bailarina Maria Estela Martinez, que mais tarde assumiria a presidência da Argentina, com a morte do marido. Em dezoito anos de exílio, Perón continuou influenciando a política do seu país, onde só retornou em 1973, e, mais uma vez, foi eleito presidente. Perón não chegou a terminar o terceiro governo, marcado pela violência política e dificuldades econômicas. Em 1º de julho de 1974, Perón morreu de enfarte aos 78 anos, sendo sucedido pela esposa, Isabelita Perón.
O populismo da Argentina ilustrado pelo governo de Perón costuma ser comparado com o governo de Getúlio Vargas. As semelhanças d podem ser caracterizadas pelo nacionalismo, culto ao líder, legitimação dos direitos trabalhistas, entre outras medidas que determinou ao Brasil o legado do "getulismo", e na Argentina o legado "peronista". No entanto, é importante lembrar que a aproximação do Estado com o povo não foi determinado como forma de legitimar direitos sociais em favor dos trabalhadores, e sim, selar um pacto corporativista com o Estado para o desenvolvimento do capitalismo industrial em ambos os países, minimizando manifestações sociais, e alcançando apoio eleitoral através da confiança dada a classe trabalhadora.

26 de junho de 2013

Atenção alunos do 6o Ano! Coletânea de vídeos TV Escola Grandes Civilizações

GRANDES CIVILIZAÇÕES: HEBREUS


GRANDES CIVILIZAÇÕES: CHINA


GRANDES CIVILIZAÇÕES: JAPÃO


GRANDES CIVILIZAÇÕES: ÍNDIA


GRANDES CIVILÇIZAÇÕES: EGITO


25 de junho de 2013

A revolta do precariado no Brasil


Publicado em 24/06/2013. Disponivel em: www.blogdaboitempo.com.br  

Por Giovanni Alves.

A onda massiva de protestos a que assistimos nas ruas das cidades brasileiras é o que poderíamos considerar como sendo a revolta do precariado, camada social da classe do proletariado constituída por jovens altamente escolarizados desempregados ou inseridos em relações de trabalho e vida precárias (a pesquisa DataFolha de 21 de junho de 2013, constatou que a maioria dos manifestantes – 63% – têm entre 21 e 35 anos; e 78% têm ensino superior). Deste modo, o conceito de precariado possui um nítido recorte geracional e uma candente inserção de classe.
É claro que o movimento social que cresceu semana passada no Brasil não se reduz tão-somente à camada social do precariado, embora ele constitua efetivamente a espinha dorsal da onda de protestos sociais que tomaram as ruas. Na medida em que foi adquirindo amplitude e exposição midiática, inseriram-se outras camadas sociais da classe do proletarido, principalmente as camadas médias – ou vulgo “classe média” – inquietas com a precarização existencial e incisivamente manipuladas pelos mass media.
Na verdade, num segundo momento da onda de protestos, deslumbrados pela projeção midiática, e interpelados pela mídia liberal-conservadora, frações da “classe média” brasileira se inseriram nas manifestações de massa. O partido dos mass media (rede de TVs e grandes jornais), verdadeiros intelectuais orgânicos da burguesia financeira hegemônica, se articularam e passaram a pautar o protesto de rua com o apoio entusiasmado da “classe média” conservadora. Utilizando seu poder ideológico, os mass-media esterilizaram o movimento social do precariando, obnubilando seu caráter de classe radical e seu apoio nas representações dos partidos políticos de esquerda. A revolta do precariado tornou-se mero movimento patriótico de ocupação das ruas com uma pauta reivindicatória difusa baseada no combate à corrupção possuindo, deste modo, nítido caráter de oposição de direita ao governo Dilma.
*
É importante salientar que o precariado como camada social do proletariado é, em si e para si, profundamente contraditório, tendo em vista que ele incorpora as contradições candentes da ordem do capital em sua etapa de crise estrutural. Na medida em que o precariado é constituído por jovens altamente escolarizados, ele tende, por um lado, a incorporar a contradição radical entre, por um lado, os sonhos de consumo e anseios de ascensão social, e por outro, os carecimentos radicais inscritos na busca por uma vida plena de sentido – carecimentos radicais incapazes de serem realizados no seio da ordem burguesa. Enfim, no seio do precariado reside a contradição radical da forma-mercadoria entre valor de troca e valor de uso.
O precariado como verdadeira “contradição viva” incorpora, com sensibilidade social, a precarização existencial inscrita na ordem burguesa hipertardia. Não se trata apenas da precarização salarial que atinge a larga parcela de jovens inseridos em relações de trabalho precários, mas a precarização existencial ou precarização do homem-que-trabalha, que deriva das condições de existência alienada da vida urbana precária. Na verdade, a precarização do trabalho está efetivamente contida, por exemplo, na precarização do trajeto entre residência e local de trabalho, na circulação e na mobilidade urbana precária (o tema do transporte público). A precarização do trabalho está presente também na precarização do tempo de vida assolado pelos requisitos do trabalho estranhado e no tempo livre manipulado pelo consumo e o lazer superficial e alienante. A precarização do trabalho deriva não apenas da organização do trabalho flexível, mas também do modo de vida just in time, promovendo uma nova dimensão de desefetivação humano-genérica: a precarização existencial ou a precarização do homem-que-trabalha, conceito discutido no meu último livro Dimensões da precarização do trabalho.
Enfim, o precariado, como camada social média do proletariado está exposto, em si e para si, com maior intensidade, à manipulação da ordem burguesa e por isso vive com maior intensidade a precarização do trabalho, tanto no sentido de precarização salarial, quanto no sentido de precarização existencial. O precariado tende a estar convulsionado, deste modo, pelo estranhamento posto como carência de futuridade e de realização pessoal.
É importante salientar que largas frações da camada social do precariado incorporam, por um lado, a ideologia de “classe média”, tendo em vista sua posição na estratificação social. Como pertencentes às camadas médias, eles estão expostos à manipulação intensa e extensa dos mass media, compartilhando, deste modo, valores sociais da velha “classe média”. O que significa que tendem a absorver a “aberração cognitiva da classe média” (como diria Marilena Chaui), sendo em si politicamente ignorantes. Entretanto, apesar disso, carregam no peito contradições candentes oriundas de sua posição objetiva de classe. Isto é, embora cultivem aspirações fetichistas de consumo e adotem o individualismo competitivo próprio do ethos burguês, estão profundamente imersos na condição de proletariedade. Por isso, o sentimento moral imediato de parcelas amplas do precariado é a indignação.
Por um lado, a parcela do precariado despolitizado e indignado torna-se refém das ideologias reacionárias de direita ou extrema direita. Por outro lado, a parcela do precariado mais politizada e inquieta com a condição de proletariedade tende a assumir, em sua ampla maioria, a ideologia do proletariado radicalizado que encontra no esquerdismo seu leito natural. Estes são os pólos antípodas da alma do precariado, manipulados, em seus limites antitéticos, pelas forças políticas da esquerda e extrema esquerda (por exemplo, comunistas revolucionários, anarquistas ou anarcoliberais) e, na outra ponta do espectro político, pelas forças políticas da direita liberal, reacionária e neofascista.
É isto que explica os dois tempos da revolta do precariado no Brasil: num primeiro momento, o movimento social foi conduzido pelas forças de esquerda radicalizada e, num segundo momento, interpelado pela mídia liberal-conservadora, o movimento social foi hegemonizado, em suas demandas políticas, pelas forças da ideologia da “classe média” liberal de cariz neofascista. O caráter dual – intrinsecamente contraditório – da alma do precariado e do seu movimento social tende a ser explorado e manipulado pelo poder da ideologia a serviço dos interesses da ordem burguesa hegemônica.
O que une o precariado é a sua imersão em carecimentos sociais e carecimentos radicais próprios da condição de proletariedade. Um detalhe: podemos conceber também um lumpemprecariado, isto é, uma franja de jovens trabalhadores altamente escolarizados imbuídos do espírito de irracionalismo social que caracteriza o sociometabolismo da ordem burguesa apodrecida. O lumpenprecariado, como expressão suprema da barbárie social, tende a fazer o culto da violência como fim em si mesmo, aliando-se objetivamente, nesse caso, às tenebrosas forças políticas neofascistas que, nas condições de governos democráticos, visam desestabilizá-los.
Deste modo, percebe-se que a “classe social” do proletariado é uma classe social complexa demarcada por camadas sociais e frações de classe, cada uma com uma cultura e psicologia social própria. No caso da camada social do precariado, o que lhe caracteriza radicalmente é o recorte geracional e a inserção num determinado status educacional, com a carga ideológica que lhe é própria. De repente, tornou-se visível nas ruas do País, a nova expressão do proletariado brasileiro que reside principalmente nas grandes cidades do país. Em sua larga maioria, o precariado é composto por estudantes. Podemos considerar o estudante como um trabalhador assalariado em formação.
A condição social de estudante é hoje uma condição precária, tendo em vista a candente falta de expectativa de futuro profissional, aliada à organização das escolas (inclusas universidades públicas e privadas), que se tornaram verdadeiras máquinas de moer gente – no sentido em que elas incorporaram, para alunos e professores, a lógica do espírito do toyotismo: intensificação do trabalho escolar, com pressão e assédio moral visando cumprimento de metas tendo em vista a obtenção do diploma universitário. É a lógica da obtenção de resultados e desempenho produtivista. E pior, no caso dos estudantes, sem perspectivas palpáveis de realização profissional futura.
O que significa que a alta escolarização não garante realização profissional. Pelo contrário, a escolarização se confunde com a própria desqualificação social. O titulado escolar tornou-se apenas uma peça substituível na engrenagem do capital. Na medida em que, cada vez mais, jovens de alta escolarização passam a compor a superpopulação relativa a serviço da produção do capital, aumenta a concorrência no seio da classe trabalhadora, com a maioria dos jovens titulados inserindo-se em relações de trabalho precário, não conseguindo realizar, deste modo, aquilo que lhe prometeram ao dedicar-se, de corpo e alma, aos estudos escolares: o sucesso profissional com um bom emprego capaz de lhes garantir carreira, consumo e família.
Em seu livro A construção da sociedade do trabalho no Brasil, o sociólogo Adalberto Cardoso descobre, embora sem o saber, o celeiro de produção do precariado no Brasil. Esta longa citação é interessante. Diz ele:
“Em 30 anos (1976-2006), ocorreu uma deterioração das chances de inserção ocupacional dos mais qualificados. Isto é, se até 1976 a maior escolaridade abria as portas das melhores ocupações urbanas, em 2006 esse já não parecia o caso. É a isso que denomino inflexão do padrão desenvolvimentista de inserção ocupacional, resultante da operação de três vetores principais: o adiamento da entrada dos jovens no mercado de trabalho; o desemprego no início das trajetórias de vida; e o consequente aumento da competição pelas posições de mercado. Ou seja, a escola adquiriu cada vez maior centralidade nas chances de inserção dos jovens, mas essas chances tornaram-se muito mais restritas e de acesso mais lento em comparação com os jovens de gerações anteriores.”
Portanto, a inflexão do padrão desenvolvimentista de inserção ocupacional que persiste ainda hoje no Brasil, mesmo com dez anos de neodesenvolvimentismo, criou e ampliou a camada social do precariado que convulsiona as ruas hoje.
Na verdade, a escolarização na ordem burguesa é um lastro de ilusões e despercepção da condição de classe. O cultivo de sonhos, expectativas e valores de mercado pela juventude proletária altamente escolarizada persegue o precariado, confundindo sua condição de classe e disseminando nele a cultura do individualismo próprio do ethos da sociedade das mercadorias. Ao mesmo tempo, a profunda manipulação da ordem do capital os inquieta radicalmente, levando-os às ruas para se expressarem como multidão. A catarse coletiva da multidão do precariado, em sua dimensão contingente, expõe sua insatisfação com as necessidades sociais não satisfeitas pelos anos de neodesenvolvimetismo; e mais do que isso, expressa tendencialmente os carecimentos radicais inscritos no próprio ser do precariado. Enfim, esta é a contradição suprema deste ser social que se manifesta e se organiza por meio das redes sociais (Facebook e Twitter, predominantemente) e que sai às ruas para dizer: “nós somos a contradição viva carente de direção política radical no sentido de assumir em si e para si a consciência de classe capaz de construir a democratização radical da sociedade”.
*
Temos salientado que o precariado representa em si e para si a carência de futuridade intrínseca à ordem do capital. Por isso são suscetíveis a absorverem em suas atitudes sociais, formas de irracionalidade que caracterizam a ordem decadente do capital. A carência de futuridade deriva daquela “presentificação crônica” constatada por Eric Hobsbawn há alguns anos e que caracteriza o sociometabolismo da barbárie social. Na ótica liberal, não existe nada para além do capitalismo, a não ser o próprio capital em sua forma arcaica (as experiências pós-capitalistas do século XX). No princípio, era o homem burguês – eis o que diz o livro do “Genesis” do capital. Esta é a perspectiva epistemológica e moral da economia política tão criticada por Marx. A presentificação histórica do capitalismo tal como operava a economia política é a versão clássica (e elegante) da presentificação crônica que entorpece o precariado sob capitalismo manipulatório.
Como observou o filósofo Henri Bérgson no começo do século XX, “nós praticamente só percebemos o passado”, com o “presente puro sendo o avanço invisível do passado consumindo o futuro”. O que significa que o “presente puro” não existe; ele é apenas “o passado consumindo o futuro”. O que Bergson descreve, sem o saber, é a ontologia da temporalidade do capital, onde o passado, com sua inércia amortecedora, domina o presente, elimanando as chances de uma ordem futura qualitativamente diferente.
Na verdade, para István Mészáros o capital caracteriza-se por uma “temporalidade decapitada”, isto é, uma temporalidade restauradora, “a paralisante temporalidade restauradora do capital”, tendente a construir um “futuro” como uma espécie de versão do status quo ante. Deste modo, a temporalidade do capital que hoje se afirma não é uma temporalidade aberta, mas sim uma temporalidade fechada que não liga o presente a um futuro de verdade que já se abre à frente.
No caso dos “precários” que compõem a camada social do precariado, eles têm a percepção clara da temporalidade fechada do capital, percepção estranhada de perda do futuro que os projeta, no plano da contingência, na “presentificação crônica” do metabolismo social do capital. Ideologicamente, na sua consciência contingente, tendem a incorporar a presentificação histórica do capitalismo posta pela consciência liberal (o que trava a consciência utópica). Na verdade, a consciência liberal hegemônica no seio de parcelas do precariado, só traduz, no plano ideológico, o modo de ser da “paralisante temporalidade restauradora do capital”.
Nas condições do poder da ideologia e da constituição da “multidão” do precariado, coloca-se hoje, mais do que nunca, a necessidade radical da luta ideológica que, num mundo social do trabalho precário, torna-se mais candente tendo em vista a exacerbação da manipulação como modo de afirmação do capital como sociometabolismo estranhado.
Não se trata apenas de um problema social (vínculos laborais precários, baixos salários, falta de direitos laborais), mas sim, trata-se de um problema existencial que corrói a individualidade pessoal. A precariedade salarial e a precariedade existencial interditam a vida pessoal do sujeito de classe. É a alienação/estranhamento na sua dimensão radical.
No plano da consciência de classe contingente, expõe-se a carência de futuridade. Torna-se cada vez mais claro na percepção da consciencia de classe contingente que o capitalismo global hipotecou o futuro de jovens-adultos que cumpriram tudo aquilo que a ordem burguesa receitou para obterem o sucesso, mas não encontraram um “lugar ao sol”, com a incapacidade do próprio sistema incluí-los como força de trabalho produtiva.
No livro Para além do capital, István Meszáros, um dos críticos radicais da perspectiva ideologia social-democrata, observou o seguinte: “A inalterável temporalidade histórica do capital é a posteriori e retrospectiva. Não pode haver futuro num sentido significativo da expressão, pois o único futuro admissível já chegou, na forma dos parâmetros existentes da ordem estabelecida bem antes de ser levantada a questão sobre ‘o que deve ser feito’.” Portanto, sob as condições da crise estrutural do capital, explicita-se com vigor um dos traços candentes da ordem burguesa e uma particularidade radical da nossa época histórica que se distingue de outras épocas do capitalismo histórico: a interdição persistente da futuridade.
Ora, quando o sistema do capital não consegue “incluir” em seus parâmetros socio-reprodutivos trabalhadores jovens-adultos altamente escolarizados de acordo com as prescrições e proscrições da ordem burguesa, há algo de podre no reino da Dinamarca. O espectro do precariado, como o espectro de Hamlet, é expressão do apodrecimento da ordem burguesa.
De fato, no Brasil de hoje, no plano imediato, a voz das ruas exige avanços sociais. É o caso, por exemplo, da satisfação de necessidades sociais vinculadas aos direitos de educação, saúde e transporte público de qualidade. Exige-se do Estado burguês mais investimentos públicos capazes de atenderem às necessidades sociais da classe trabalhadora. Entretanto, por outro lado, a voz das ruas expõe carecimentos radicais ativados pela precarização existencial. Carecimentos radicais que dizem respeito a uma vida plena de sentido, que são, em si e para si, incapazes de serem absorvidos pela ordem burguesa, pois dizem respeito a demandas existenciais para além do capital. Esta é a candente contradição capitalista do século XXI.
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Ora, dez anos de governo Lula e Dilma no Brasil foram 10 anos de deformação espiritual da classe trabalhadora, manipulada pelas igrejas neopentecostais e mídia liberal-conservadora, apesar das benesses da economia política do neodesenvolvimentismo. A despreocupação dos governos Lula e Dilma com o controle social dos meios de comunicação e o desinteresse do PT com a formação política na perspectiva da consciência de classe, contribuíram para a imbecilização das massas proletárias no Brasil.
Na verdade, o “choque de capitalismo” dos anos dourados do neodesenvolvimentismo adoeceu – física e mentalmente – o mundo do trabalho. A confusão mental e ideológica assumiu as raias do absurdo, atingindo inclusive largas parcelas da intelectualidade. A geração Y (“geração neoliberal”), que nasceu inserida no mundo das redes virtuais, desligadas do passado público de luta de classes, alienadas do significado da política revolucionária – muitos confundem revolução com vandalismo – impregnaram-se, em si e para si, do fetichismo da mercadoria que provocou tremenda confusão ideológica por conta da manipulação.
Ao mesmo tempo, deve-se salientar a miséria da intelectualidade de esquerda reformista ou os devaneios da intelectualidade de extrema-esquerda, incapazes de operarem práticas culturais e políticas de formação da classe no cenário de barbárie social. Pode-se dizer que existe hoje uma crise do intelectual orgânico de classe no Brasil. Partidos de esquerda e extrema-esquerda e sindicatos de trabalhadores têm profunda dificuldade em absorver as demandas radicais e as formas de organização contingente do precariado.
Finalmente, é importante salientar que a revolta do precariado expõe os limites do neodesenvolvimentismo e do lulismo (o que não significa que o neodesenvolvimentismo e o lulismo, em si e para si, esgotaram-se como projeto burguês). A revolta do precariado expõe os limites do neodesenvolvimentismo primeiro pelo fato do neodesenvolvimentismo ser um projeto de desenvolvimento capitalista que tende a agudizar irremediavelmente os carecimentos radicais do precariado. O modo de vida just in time nas cidades metropolizadas do Brasil enlouquecem o mundo do trabalho, esvaziando as individualidades pessoais de classe expostas à precarização existencial.
Depois, a revolta do precariado expôs os limites irremediáveis do projeto lulista de poder baseado nas demandas sociais do subproletariado como classe-apoio. Nesse caso, a tarefa política do lulismo, caso queira sustentar-se como projeto civilizatório nos limites da ordem burguesa, é incorporar as demandas sociais do precariado – num primeiro momento realizando suas necessidades sociais, o que significa construir um projeto de neodesenvolvimentismo que amplie investimentos públicos na educação, saúde, transporte público e serviços públicos de qualidade (o que exige discutir uma pauta de reformas de base que devem transtornar o bloco de poder); e, num segundo momento, um projeto de desenvolvimento social para o Brasil que leve em conta os carecimentos radicais das individualidades de classe, o que, contraditoriamente exigiria negar o neodesenvolvimentismo como projeto burguês e resgatar o projeto socialista como projeto de democratização radical da sociedade visando ir além do capital – o que exigiria uma nova frente política ampla e de massas capaz de hegemonia social e cultural.
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O livro mais recente de Giovanni Alves, Trabalho e subjetividade (Boitempo, 2011) Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp, livre-docente em sociologia e professor da Unesp, campus de Marília. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordenador da Rede de Estudos do Trabalho (RET), do Projeto Tela Crítica e outros núcleos de pesquisa reunidos em seu site giovannialves.org. É autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, entre os quais O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo (Boitempo Editorial, 2000) e Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório (Boitempo Editorial, 2011). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.