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5 de agosto de 2014

Sobre o conflito em Gaza de Israel X Palestina


A Palestina apagada do mapa 

In: Blog da Boitempo:
Escrito por Guilherme Boulos

Já passam de 1.200 palestinos mortos na faixa de Gaza desde o dia 8 de julho. Entre eles centenas de crianças. Os bombardeios de Israel não pouparam nem escolas e hospitais, supostamente “bases para terroristas”. Ontem atacaram um abrigo da ONU, matando 19 palestinos. O Comissário da Agência da ONU para os refugiados disse que crianças foram mortas enquanto dormiam. Não satisfeitos, bombardearam também a única usina que fornecia energia elétrica para Gaza.
Às escuras, sem refúgio seguro nem hospitais e com cadáveres espalhados entre os escombros da destruição – este é o retrato da faixa de Gaza.
É possível uma posição de neutralidade? Só para os hipócritas. Neutralidade perante a barbárie e o genocídio equivale a tomar posição a seu favor. Não há meio termo possível em relação a Israel.
O colunista desta Folha Ricardo Melo teve a coragem de defender que a única solução para a questão é o fim do Estado terrorista de Israel. Foi bombardeado pelos sionistas de plantão e pelos defensores da neutralidade. E, como não poderia deixar de ser, acusado de antissemita.
Um pouco de história faz bem ao debate.
O movimento sionista surgiu no final do século 19, movido pelo apelo religioso de retorno à “Terra Prometida”, em referência à colina de Sion em Jerusalém. A proposta era construir colônias judaicas na Palestina, que então já contava com 600 mil habitantes. Ou seja, não se tratava de uma terra despovoada, mas de um povo lá estabelecido há mais de 12 séculos.
Nem todos os sionistas defendiam um Estado judeu na Palestina. Havia formas de sionismo cultural ou religioso que reconheciam a legitimidade dos palestinos sobre seu território. Albert Einstein, por exemplo, foi um dos que rechaçou em várias oportunidades o sionismo político, isto é, um Estado religioso na Palestina e contra os palestinos.
No entanto prevaleceu ao longo dos tempos a posição colonialista. Seu maior representante foi David Ben Gurion que, diante da natural resistência dos palestinos, organizou as primeiras formas de terrorismo sionista, através dos grupos armados Haganá, Stern e Irgun – este último responsável por um ataque à bomba em um hotel de Jerusalém em 1946.
Os palestinos eram então ampla maioria populacional, com apenas 30% de judeus na Palestina até 1947. Porém, por meio das armas, a partir de 1948 – quando há a proclamação do Estado de Israel – a maioria palestina foi sendo expulsa sistematicamente de seu território. Cerca de metade dos palestinos tornaram-se após 1949 refugiados em países árabes vizinhos, especialmente na Jordânia, Síria e Líbano.
A vitória militar dos sionistas só foi possível graças ao contundente apoio militar de países europeus e dos Estados Unidos.
Em 1967, Israel dá o segundo grande golpe. Após o Presidente egípcio Abdel Nasser fechar o golfo de Ácaba para os navios israelenses, os sionistas atacam com decisivo apoio norte-americano, quadruplicando seu território em seis dias, tomando inclusive territórios do Egito e da Síria. Desta forma bélica e imperialista – como corsários dos Estados Unidos – Israel foi formando seu domínio.
Depois de 1967 foram massacres atrás de massacres. Um dos mais cruéis – ao lado do atual – foi no Líbano em 1982. Após invadir Beirute, as tropas comandadas por Ariel Sharon – que veio a ser primeiro-ministro posteriormente – cercaram os campos de refugiados palestinos em Sabra e Chatilla e entregaram milhares de palestinos ao ódio de milicianos da Falange Libanesa. Após 30 horas ininterruptas de massacre, foram 2.400 mortos (de acordo com a Cruz Vermelha) e centenas de torturados, estuprados e mutilados – incluindo evidentemente crianças, mulheres e idosos.
Hoje há 4,5 milhões de refugiados palestinos segundo a ONU. Este número só tende a aumentar pela política higienista de Israel.
Caminhamos neste momento em Gaza para o maior genocídio do século 21. E há os que insistem no cínico argumento do direito à autodefesa de Israel. Quem ao longo da história sempre atacou agora vem falar em defesa?
Tudo isso perante a passividade complacente da maior parte dos líderes políticos do mundo. O Brasil limitou-se a chamar o embaixador para esclarecimentos. Foi chamado de “anão diplomático” pelo governo de Israel e nada respondeu. Romper relações políticas e econômicas com Israel é uma atitude urgente e de ordem humanitária.
A hipocrisia chega ao máximo quando acusa os críticos do terrorismo israelense de antissemitas. O antissemitismo, assim como todas as formas de ódio racial, religioso e étnico, deve ser veementemente condenado. Agora, utilizar o antissemitismo ou o execrável genocídio nazista aos judeus como argumento para continuar massacrando os palestinos é inaceitável.
É uma inversão de valores. Ou melhor, é a história contada pelos vencedores. Como disse certa vez Robert McNamara, Secretário de Defesa dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã, se o Japão vencesse a Segunda Guerra, Roosevelt seria condenado por crimes de guerra contra a humanidade e não condecorado com títulos e bustos pelo mundo. A história é contada pelos vencedores.
É possível que Benjamin Netanyahu, comandante do massacre em Gaza, ainda receba o Prêmio Nobel da Paz. E que os palestinos, após desaparecerem do mapa, passem para a história como um povo bárbaro e terrorista.
* Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo, em 31 de julho de 2014.

22 de maio de 2014

O ESTADO DE BEM- ESTAR SOCIAL E O PACTO COM O CAPITALISMO

Um ponto importante de discussão para compreender a atuação do Estado como gestor da economia capitalista consiste também em compreender a própria dinâmica do capitalismo neste período.
Os avanços tecnológicos produzidos ao longo do século XIX contribuíram para que a Revolução Industrial alcançasse a sua 2ª fase. O motor da indústria passou a utilizar o petróleo e a eletricidade como matérias primas fundamentais. A produção ganhava uma maior velocidade e novos mercados deveriam ser conquistados para expansão do capital, descrevendo esta nova fase do capital como imperialista. A concorrência entre as empresas as chamadas multinacionais ultrapassavam as fronteiras nacionais e buscavam novos territórios que subsidiassem mão de obra mais barata, matéria prima em abundância e um mercado consumidor. Neste período a Ásia e África foram partilhadas entre as potências européias e recolonizadas como celeiros industriais.
O padrão industrial do inicio do século XX foi analisado por David Harvey (2006)5 como um modelo específico exemplificado a partir das fábricas de montagem dos primeiros automóveis de Henry Ford (1883/1947). O modelo conhecido como fordismo surgiu nos EUA em 1914, e incluía no sistema fabril avanços tecnológicos e uma linha de montagem seriada em etapas. No fordismo, o trabalhador deveria adquirir disciplina para conseguir operar com um sistema de linha de montagem de alta produtividade, visto que a esteira se inseria na fábrica como uma inovação tecnológica responsável pela produção em massa.

Na foto datada de 1916 apresenta Henry Ford com o modelo de carro da época.

Associado a produção em larga escala, o controle do trabalhador se caracterizava como algo fundamental no sistema produtivo fordista. O gerente foi introduzido no sistema fabril e o trabalhador na linha de montagem responsabilizava-se por uma função específica onde o tempo era controlado pela velocidade da esteira. O controle do tempo de produção foi uma invenção de Frederick Winslow Taylor, e ficou conhecido como taylorismo, um braço fundamental da produção fordista.

A imagem demonstra a divisão do trabalho na linha de montagem e o controle de  por Taylor. Cada trabalhador fica responsável por uma peça da montagem do motor como apresenta a imagem. Repare ao fundo o olhar atento do gerente. A acumulação é proveniente da exploração da mais valia do trabalhador. Quanto mais ele produzir em menos tempo, mais lucro recebe o capitalista
A imagem apresenta a linha de montagem fordista e os carros preparados para a venda. Repare na rigidez do processo de montagem e na padronização do modelo fordista. Todos os carros se apresentam iguais, o que facilita a produção em série. Ambas as características contribuíram para a produção em massa como fonte do processo de acumulação capitalista.

A produção no modelo fordista era rígida com alta regulação do Estado e voltada para do mercado, ou seja, produzia-se em larga escala um modelo único de carro que deveria ser distribuído e consumido em escala mundial. No entanto, para Ford os próprios trabalhadores deveriam se transformar em consumidores. Era também preciso conceder um salário mínimo e tempo de lazer suficiente para que os trabalhadores pudessem consumir os produtos que as corporações fabricavam em quantidades cada vez maiores. O “novo” trabalhador proposto por Ford era disciplinado, racional, e não precisava ter experiência para operar com a linha de montagem.

A clássica cena do filme Tempos Modernos estrelado por Charles Chaplin em 1936 demonstra a máquina como elemento central da produção capitalista em oposição ao trabalhador. A mercadorização se caracteriza como uma das características principais da acumulação capitalista. No processo produtivo a mercadoria passa a assumir um valor muito maior do que a força de trabalho como pontuava Marx no conceito de fetichismo do capital.
Retomando a contextualização do período de acumulação capitalista conhecido como imperialismo clássico (XIX a 1930 como pontua Ernest Mandel (1982).), a busca por novas fronteiras determinou disputas territoriais responsáveis pela divisão do mundo em alianças políticas e econômicas estratégicas. O conflito entre as potencias imperialistas ocasionou a 1ª Grande Guerra (1914/ 1918). A Europa saiu da 1ª Grande Guerra arrasada e impossibilitada de consumir os produtos fornecidos pelo mercado americano. È importante ressaltar que a ameaça a produção americana foi um dos motivos que os EUA deixaram de ser fornecedores de arma e alimentos ao longo da guerra, para então entrar no conflito e saírem vitoriosos. No entanto, a vitória não contribuiu para o equilíbrio da balança comercial americana. O índice de exportação não poderia parar e não condizia com a necessidade de consumo do mercado europeu no período pós-guerra. O resultado da produção em massa frente ausência de um mercado consumidor determinou em 1929 o Crack da Bolsa de Nova York.
O período de 1929 a 1932, conhecido como Grande Depressão se caracterizou como uma das maiores crises do capitalismo mundial. A crise teve inicio no sistema financeiro, alcançando a bolsa de Nova York, tendo repercussões no mundo e na economia mundial que viva um momento de recessão e desemprego em massa. A crise contribuiu para um revisionismo político do liberalismo, não só pela redução do processo de acumulação capitalista. Segundo Behring (2011), a crise de 1929 configurou uma superabundância de capitais e uma escassez de lucros, produzindo o desemprego generalizado e a queda do consumo, inviabilizando o processo de realização da mais valia. O contexto de crise econômica mundialmente reconhecida determinou uma inflexão da confiança e atitude cega da burguesia no automatismo do mercado, além disso, a influência da Revolução Socialista de 1917 na Rússia tornou-se uma ameaça, e no pós-guerra regimes nacionalistas como o fascismo na Europa também se tornaram uma alternativa a crise capitalista diferente do socialismo.
Dos projetos políticos em disputa para se repensar a economia destacavam-se o fascismo e o projeto reformista liberal, ambos defendidos pela burguesia, e o projeto socialista conduzido na URSS por Stálin. No entanto, o projeto reformista liberal ganhava maior significado para a retomada do desenvolvimento econômico capitalista. Na década de 1930, o economista John Maynard Keynes defendia a intervenção do Estado para condução da economia do país, o que determinou uma reformulação nas teorias sobre o livre mercado. Segundo Keynes, a economia deveria estar voltada para garantia do pleno emprego, pois o desemprego seria responsável pela redução das forças do mercado. O objetivo do keynesianismo era propor que o Estado interviesse na vida
econômica para garantir o pleno emprego, no sentido de manter o crescimento da demanda em equidade com o aumento da capacidade produtiva da economia.
A influência do keynesianismo nos EUA foi pragmática, para que o então presidente Franklin Roosevelt dotasse as ideias de Keynes como o motor que retomasse do desenvolvimento econômico. A proposta do presidente Steve voltada para um plano econômico denominado de New Deal cujo objetivo era a sustentação pública de um conjunto de medidas anticrise, tendo objetivo amortecer as crises cíclicas de superprodução, super acumulação e subconsumo, intrínsecas à lógica do capital. Após a crise de 1929 a conjuntura econômica dos EUA era marcada pela retração, pelo pauperismo e elevadas taxas de desemprego. O New Deal determinou um período de forte intervenção estatal na regulação da política agrícola, industrial, monetária e social determinando a reformulação do liberalismo clássico.

O cartaz da época de 1933 sobre o New Deal nos EUA demonstra a importância do Estado para garantia do pleno emprego. Na imagem o presidente Roosevelt está sendo abraçado pelo trabalhador e os dizeres do cartaz: “Roosevelt Labor´s Choice” (Roosevelt a chance do trabalhador) reforçam a força de trabalho como o elemento central do processo de acumulação capitalista, tanto para produção como para o consumo das mercadorias.
Com o New Deal, o governo americano agiu procurando reerguer os setores privados e assim conseguir restabelecer o pleno emprego, e elevar a renda dos trabalhadores como forma de equilibrar a produção com o consumo. Dentre as medidas adotas, destacam-se:
· A desvalorização do dólar para tornar as exportações mais competitivas
· Os empréstimos concedidos pelo Estado a bancos para evitar novas falências
· A implantação de um sistema de seguridade social pelo Estado, entre eles a
criação do seguro-desemprego para evitar que mesmo desempregado o
trabalhador não deixe de atuar como consumidor.
· Criação de um programa de obras publicas para gerar empregos.
· Criação de um salário mínimo e concessão aos trabalhadores do direito de
organização sindical
· Estimulo a produção agrícola.
As medidas propostas pelo keynesianismo foram adotadas nos EUA e na Europa em diferentes versões, determinando, principalmente após a 2ª Guerra Mundial (1939/1945), o crescimento do chamado Estado de Bem Estar conhecido pelo projeto político burguês da social democracia. O crescimento do Estado de Bem Estar também se caracterizou como uma alternativa política em oposição à difusão do socialismo no período de pós-guerra em especial durante a Guerra Fria. No projeto da social democracia, o estado é responsável por gerir o fundo público para regulação das relações econômicas e sociais, o que implica na ideia de bem estar a partir da proteção social pelo Estado a indivíduos que não conseguem sobreviver individualmente na lógica do mercado, por exemplo, pessoas incapazes para o trabalho como idosos, deficientes e crianças. Nesta lógica de proteção e intervenção, as políticas sociais ganham força e tornam-se essenciais para manutenção do Estado de Bem Estar Social. Os ideais da social democracia estabeleceram políticas abrangentes e mais universalizadas, que se baseavam na cidadania e no compromisso do Estado em investir recursos para expandir os benefícios sociais, garantir o pleno emprego e o crescimento econômico. O Welfare State, como ficou conhecido o Estado de Bem estar social, demarcou o período de ouro das políticas sociais. Segundo Behring (2011), o orçamento social em todos os países da Europa que compunham a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) aumentou, cuja média de gasto em relação ao produto interno bruto passou de 3% em 1914, para 5% em 1940, entre 10% e 20%
em 1950 e 25% em 1970. Com este investimento ocorreu uma mudança demográfica na Europa, a população idosa aumentou, e com isso, os gastos com aposentadoria e saúde também, além disso, ocorreu um investimento em programas sociais voltado para cobertura de acidentes de trabalho, seguro-doença, seguro-desemprego, auxilio a maternidade, trabalhadores inválidos, aposentadoria, entre outros. A lógica do Welfare State era a segurança social.
O keynesianismo assumiu um pacto com o modelo fordista de produção e sofreu um surto de expansão no período pós-guerra de alcance mundial até 1973, quando passa por uma transição, onde discutiremos a seguir. O pacto fordista-keynesianista esteve voltado para manutenção da produção em massa para o consumo de massa e de acordos coletivos com os trabalhadores, o que possibilitou uma mudança na forma de regulação das relações sociais, em especial dos trabalhadores. Segundo Harvey (2006) para que o capital coorporativo mantivesse a linha da lucratividade foi preciso que o trabalhado organizado assumisse novos papéis e funções relativas ao mercado de trabalho e nos processos de produção. Criou-se um equilíbrio de poder, tenso mas firme, estabelecido entre o trabalho organizado, o capital corporativo e a nação-Estado que determinou a base da expansão do modelo capitalista monopolista no pós-guerra.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
HARVEY, David. A Condição Pós-Moderna. Edições Loyola. SP: 2006.
BEHRING, Elaine. Política Social: fundamentos e história. Cortez Editora: SP, 2011.

ASSISTA O VÍDEO DO TELECURSO DE HISTÓRIA SOBRE A CRISE DO CAPITALISMO EM 1929
  

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